Almofala

Enquadramento geográfico e administrativo

Almofala é uma freguesia portuguesa do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, com 29,86 km² de área e 250 habitantes (2001). Densidade: 8,4 hab/km².




Prólogo
Dentro dos limites da freguesia assinalaram-se vestígios de ocupação desde épocas bastante remotas, tais como o Eneolítico a Idade do Ferro, as épocas romana e árabe e, já na Idade Média, o actual topónimo surge constantemente registado em documentos escritos, desde os meados do século XII. Pela mesma época, a povoação era um dos locais de passagem dos peregrinos que se deslocavam a Santiago de Compostela. Mais tarde, na guerra da Restauração foi uma das povoações que mais sofreu com as depredações castelhanas, das quais resultou a total destruição de um povoado vizinho designado Colmeal das Olas e da Aldeia da Torre dos Frades. Trata-se portanto de uma freguesia do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo com numerosas e interessantes referências históricas.



Proto-História

Em local próximo da aldeia de Almofala, o lugar denominado de Vale do Torno - que juntamente com os sítios de, Ribeira dos Frades e, mais para Nascente, o Cachão e Cabeço da Prata, formam uma área considerada de intensa actividade mineira até muito recentemente - foram encontrados alguns machados de pedra polida, que os arqueólogos datam do Eneolítico, isto é uma fase intermédia entre os finais do Neolítico e a Idade do Bronze e, portanto coexistente com a Idade do Cobre, fase essa compreendida, grosso modo, entre 2.500 a. C. e 1.800 a. C. Posto que as comunidades eneolíticas sejam entendidas pelos arqueólogos e historiadores como comunidades com características culturais arcaicas e, por isso, diferenciadas de outras comunidades suas contemporâneas que já dominavam a metalurgia do cobre, o Vale de Torno deve ser entendido como um local de povoamento muito antigo, podendo remontar a qualquer uma das fases da Pré-História.

Alguns arqueólogos, como A. N. Sá Coixão, costumam ser um pouco reservados relativamente a uma cultura castreja adaptada à região do Baixo Côa, mas este autor admite a possibilidade de que os povos da Proto-História aqui tenham continuado a assentar arraiais, adoptando «um modelo próprio». Na região de Almofala, Sá Coixão não hesita em afirmar que «o sítio da Capela de Santo André […], onde além de diversos materiais, a presença de dois berrões indiciam-nos uma pujança ocupacional durante a 2ª Idade do Ferro, continuada depois na época romana». [1] A propósito desta estação arqueológica anotou Susana Cosme:

«Santo André, situado na freguesia de Almofala, concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, a uma Lat. – 40º 53’ 06’’ e uma Long. – 6º 50’ 01’’, é um povoado de altura, com cerca de 556 m de altitude, apresenta-se numa elevação sobre o Rio Águeda, controlando uma vasta área de território. É sem dúvida o povoado indígena com maior importância na região, com estruturas mais relevantes e que na nossa opinião poderia ter sido a capital dos “Cobelci” (Cosme, 2002). Manuel Andrade Maia supõe ter existido aqui um santuário proto-histórico devido à presença dos dois berrões. São figuras toscas em esculturas de pedra representando porcos, touros, carneiros ou javalis, normalmente associadas a representações de divindades, ex-votos a uma entidade tutelar, protectora de rebanhos e propiciadora da fertilidade destes, por vezes ligado à pastorícia. O contexto, a cronologia e variedade formal destes elementos gera alguma discordância quanto a significados e a funções, mas a sua presença neste local é por demais importante sejam quais forem os significados, funções e/ou as cronologias que lhes atribuirmos. Este local encontra-se circundado com uma muralha de pedra granítica de pequenas dimensões e são ainda visíveis bastantes cerâmicas proto-históricas e de época romana». [2]


Também se admite que a Civitas Cobelcorum da época romana, construída no local conhecido, entre outras designações, por Torre de Almofala, se tratou de um povoado proto-histórico romanizado, cujos habitantes, eram conhecidos pelo nome de cobelcos, não havendo razões, em nosso entender, para crer que a sua capital tenha sido o povoado igualmente romanizado de Santo André, atrás considerado, como pretende Susana Cosme.



Época Romana

O território pertencente à freguesia de Almofala integra-se na área considerada mais representativa da romanização do Baixo Còa, área essa que segundo Sá Coixão, «nos leva de ocidente para leste, desde a Quintã de Pêro Martins, a Figueira de Castelo Rodrigo, finalizando em Almofala».

Um dos locais de ocupação na época romana considerados mais importantes, dentro dos limites da freguesia de Almofala é o já mencionado sítio da Torre de Almofala. Situa-se numa elevação planáltica com a altitude de 633 metros, próximo do cruzamento que liga a vila de Figueira de Castelo Rodrigo à freguesia de Almofala, a escassos metros da paradisíaca Albufeira de Santa Maria de Aguiar. Possui um imóvel com origem na época romana, classificado como Monumento nacional pelo Decreto-lei 129/77 de 29 de Setembro de 1977. Entre esta data e os finais da década de 80, a identificação de elementos arquitectónicos no corpo do edifício e o achado de tegulae, à superfície, na área contígua, entre as ruínas do casario, alimentaram fortes suspeitas de que o local havia sido ocupado na época romana. As campanhas arqueológicas iniciadas em 1989 proporcionaram não só a confirmação dessas suspeitas como também uma melhor compreensão do local, da sua evolução histórico-geográfico, e boas condições para a sua futura recuperação. Hoje, não restam dúvidas de que o monumento começou por ser um templo romano. A descoberta, em 1997, de uma ara dedicada a Júpiter serviu de base para se ter uma ideia da importância do local durante a época romana, afigurando-se como um bom indicador da existência ali de uma civitas - a Civitas Cobelcorum - cidade capital dos cobelcos, um povo cuja existência era conhecida por se encontrar assinalada em documentos epigráficos de proveniência diversa, mas cuja localização constituía um enigma.[3] Tal conclusão suscitou a rectificação do esquema anteriormente traçado sobre a distribuição dos povos romanizados desta região. Civitas Cobelcorum foi uma das três, ou talvez quatro, civitates que existiram no território do Baixo Côa, a par com Civitas Aravorum (Devesa, Marialva, Meda) e Civitas Meidubrigenses (Freixo de Numão ou Numão, Vila Nova de Foz Côa). Segundo Coixão, a descoberta por Jorge de Alarcão de uma inscrição romana junto da Capela do Santo Cristo em Barca de Alva, freguesia de Escalhão, possivelmente proveniente de Vale de Telhões, onde se faz referência a um cobelco, deixa em aberto a possibilidade de Caliábriga não pertencer ao território de Civitas Cobelcorum e, portanto, a possibilidade de existir «entre a serra da Marofa e os rios Côa, Douro e Águeda, uma outra Civitas ainda não identificada e distinta das dos Cobelci, Aravi e Medubrigenses».

Outro local de importante ocupação na época romana dentro dos limites da freguesia de Almofala foi o da capela de Santo André, também já atrás considerado, onde, segundo a supracitada arqueóloga Susana Cosme, é ainda visível que a capela de Santo André, uma construção do século XVI, emprega no seu aparelho construtivo pedras almofadas e fustes de colunas de época romana reutilizadas. Foi ainda encontrada uma inscrição datada do século II d. C. [4]

A sul da Torre de Almofala, na mesma freguesia, foram detectados pelo arqueólogo Andrade Maia (pp. 211-213) em Cabeço da Recta e no Cabeço da Prata vestígios de cerâmicas romanas que podem ter pertencido a uma villae. [5]



Época visigótica

É sabido que durante a época suevo-visigótica a região do Alto Douro e o território de Ribacôa mereceram a atenção dos respectivos reis, sobretudo dos monarcas visigodos da dinastia de Toledo, tendo sido estas regiões alvo de uma profunda reorganização eclesiástica que se materializou na criação da diocese de Caliábria ou Caliábriga em 621, ou mesmo antes desta data (ver categoria história regional, neste blogue) sob a qual recaíram as paróquias daí subtraídas, como a própria Caliábriga, da diocese de Viseu.

Todavia, não se assinalam no espaço da freguesia de Almofala, como aliás em nenhuma parte de Ribacôa, quaisquer indícios documentais de influência visigótica à excepção do próprio bispado de Caliábriga. O arqueólogo e historiador Jorge de Alarcão sugeriu a indicação da comunidade que na época romana fez parte da Civitas Cobelcorum, portanto num dos locais da freguesia Almofala a que atrás nos referimos, como a possível paróquia de Coleia, que havia pertencido à diocese de Viseu e passado à de Caliábria.

«Mas porque falámos na reorganização eclesiástica de inícios do século VII nesta área de ambas as margens do Douro, não deixaremos de fazer uma referência à paróquia de Coleia. É possível que esta “paróquia”, onde cunharam moeda os reis visigóticos Recaredo (586-601), Sisebuto (612-621) e Suintila (621-631) (Mateu y Llopis, 1936, p. 361), tenha sido distraída da diocese de Viseu e integrada na de Caliabria aquando da criação desta última.
Em trabalho anterior (Alarcão, 2001a, p. 52-53), sugerimos a identificação de Coleia com a capital da civitas Cobelcorum em Almofala (Figueira de Castelo Rodrigo). Helena Frade alerta-nos para o facto de não ter descoberto, nas suas escavações de Almofala, materiais atribuíveis à época suevo-visigótica. Temos, pois, de ser prudentes na identificação de Almofala com a Coleia suévica.» [6]

É provável que nesta época a antiga capital dos cobelcos tivesse já inciado o seu processo de progressiva decadência no decurso do qual, em meados do século XII se viria, como se sabe, reduzida a uma modesta granja do Mosteiro de Santa Maria de Aguiar.

Esta época é, portanto, uma das mais obscuras para a história de Almofala e das demais localidades do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, o que não exclui a possibilidade de que as comunidades a que nos referimos relativamente ao período anterior terem subsistido com maior ou menor dinamismo.



Domínio árabe

Até aqui temo-nos pronunciado sobre possíveis locais de ocupação dentro dos limites da freguesia de Almofala. Relativamente à época árabe, apesar da inexistência de indicadores materiais da passagem dos muçulmanos na região, abre-se uma nova perspectiva no sentido de podermos equacionar a origem da própria localidade actual e essa perspectiva tem a ver com a origem e o significado possível do topónimo Almofala. A atribuição de uma raiz árabe na forma «al-mohalla» associada ao significado de «arraial» ou «acampamento militar muçulmano» não suscita contestações, até ver, sendo aliás entendido por historiadores como António. M. Balcão Vicente, como um dos «topónimos de origem árabe que apresentam peso mais significativo» em Ribacôa, a par de Alfaiates (al-haiat, cobra, víbora), Almeida (al-maidâ, a mesa), Caria Talaia (qariâ táliâ, povoação fortificada), Arrifana (ar-rihanâ, murta) e Mesquitela. [7]

Se o significado do topónimo de Almofala atesta que a sua região seria uma região de importância estratégica para as operações militares da nação árabe, induz-nos a uma questão que em nosso entender terá todo o sentido formular aqui: Terá a povoação de Almofala começado a formar-se em torno de um acampamento militar árabe, no mesmo sentido de que se diz, e se tem por certo, que algumas povoações e cidades actuais nasceram de acampamentos militares de povos diversos, na sua maioria romanos, tanto em Portugal como noutros países? É bem possível que sim. Será assim um resultado de colonização muçulmana, com predominância do elemento berbere ou até moçárabe, isto é de cristãos das redondezas que, abandonados à sua sorte pela aristocracia goda em debandada para Norte, em consequência das primeiras ofensivas dos árabes, se acolheram à protecção daqueles e voluntariamente se deixaram aculturar.



Domínio leonês

Após um período de cerca três séculos de dominação árabe, tão longo quanto obscuro, sabe-se que pelo século X começaram as campanhas de reconquista e repovoamento cristãos dos reis de Leão, Ramiro II e Ordonho III, no território do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, no contexto dos quais se admite que tenha resultado o aparecimento de Escarigo (Ascaricus), por exemplo, um topónimo hispano-godo que segundo Luis Filipe Lindley Cintra deve ser dessa época e não da época visigótica, como já se pretendeu. Também Almendra (Amíndola) consta num documento datado do ano de 960 como uma terra anteriormente doada por Ramiro II a sua sobrinha D. Chamoa que, por morte desta sem descendência, foi passada a sua tia, Mumadona Dias. Sabe-se ainda que pelos meados do século XI a região de Ribacôa foi definitivamente conquistada por Fernando I (Fernando Magno), ainda que tenha permanecido, durante perto de mais um século, como uma área de incursões cristãs e algaras mouras. Conhece-se ainda o interesse manifestado pelos monarcas leoneses que se seguiram, pelo território de Ribacôa, desde o povoamento de Ciudad Rodrigo por Fernando II, em 1161, e a restauração da diocese de Caliábriga nesta nova cidade (mantendo-se até hoje a designação de Caliábria como «sé titular»), seguindo-se o estabelecimento de instituições destinadas a atrair as populações e fixá-las à terra, como foi caso do mosteiro de Santa Maria de Aguiar, e destinadas a defender o território das investidas muçulmanas, como foi o caso da fundação da Ordem de S. Julião do Pereiro em Cinco Vilas. Muitas terras pertencentes hoje ao concelho de Castelo Rodrigo, e fora dele, foram doadas a estas instituições, o que prova que essas terras já eram habitadas [8]

É neste contexto de reorganização cristã em Ribacôa que surge a primeira indicação documental da existência da Almofala, como uma localidade pré-existente nos primórdios da instituição monástica de Santa Maria de Aguiar. Trata-se de um documento datado de 1165 que se conhece por um apócrifo do século XIV e que se refere às doações feitas por Fernando II de Leão ao abade do Mosteiro, D. Hugo, da granja da Torre de Aguiar e da granja nova de Rio Chico, com a isenção dos respectivos coutos na descrição de cujos limites se refere amiúde a Almofala. Esta localidade foi inicialmente transformada numa das granjas do mosteiro de Santa Maria de Aguiar, como se depreende de um outro documento do cartório desta instituição, um breve de Pio II de 5 de Fevereiro de 1459, onde se refere que a paróquia de Almofala já tinha sido granja do convento e que, por isso fosse nele de novo integrado o que se confirmou por um outro documento de 1462 no qual se diz que «o abade de Salzedas, na qualidade de Juiz Apostólico determinou que as Igrejas Paroquiais de Almofala, Mata de Lobos, S. Vicente de Figueira e Vilar pertenciam ao Mosteiro», pela razão atrás referida. [9]

A relação de Almofala com o mosteiro de Santa Maria de Aguiar decorreu certamente de forma mais estreita enquanto durou o domínio leonês em Ribacôa, sendo, no temporal, um dos lugares do termo de Castelo Rodrigo, cujo concelho foi instituído em 1209 por carta de foral de Afonso IX de Leão. Com a integração do território na soberania portuguesa, essa relação foi-se progressivamente esbatendo, como aconteceu com as restantes igrejas paroquiais, atrás referidas, que se encontravam nas mesmas circunstâncias, de nada valendo os apelos dirigidos pelos abades monásticos à Santa Sé no sentido de lhes serem confirmados os direitos espirituais que lhes eram devidos sobre essas paróquias.



Integração na História de Portugal

Passou para a soberania portuguesa, juntamente com os restantes lugares do termo de Castelo Rodrigo, após a celebração do Tratado de Alcanices, a 12 de Setembro de 1297, e fez sempre parte do respectivo concelho até a transferência da sede administrativa para a vila de Figueira de Castelo Rodrigo, a 25 de Junho de 1836.


Evolução histórico-social

Devido à sua localização junto da fronteira de Ribacôa definida pelo curso natural do Águeda, a localidade de Almofala foi das que mais sentiram os malefícios das guerras com Castela, a que já se faziam eco as palavras dos procuradores de Castelo Rodrigo nas Cortes de Évora de 1477, quando se referiam ao abandono das lavras pelo despovoamento da região e da ruína dos castelos, muros e pontes, pedindo a ajuda régia para as necessárias obras de reparação. [10] Mesmo em tempo de paz sofreram com a prepotência dos barões e alcaides da região, como os famigerados João de Gouveia e conde de Marialva, que foram alcaides de Castelo Rodrigo e cometiam todo o tipo de injustiças sobre os povos, sem qualquer respeito pelos seus costumes e privilégios. O cartório do Mosteiro de Santa Maria de Aguiar contém vários documentos que testemunham actos desta natureza. Em 1453, por exemplo, o abade de Santa Maria de Aguiar obteve do Corregedor para que João de Gouveia restituísse aos moradores da Torre dos Frades e da granja de rio Chico os bens que lhes tinha penhorado, e, em 1496 houve D. Manuel que agir em protecção da jurisdição do Mosteiro contra as intenções do Conde de Marialva que a queria usurpar. Maiores sofrimentos foram os que lhes foram causados pelas guerras da Restauração. Em 17 de Outubro 1642 a força espanhola composta de 1200 infantes e 500 soldados de cavalaria que entrou por Escarigo e derrotou a escassa guarnição de 70 soldados que aí se encontrava, continuou pela Vermiosa, Almofala, Torre dos Frades e Mata de Lobos, saqueando e destruindo até ser travada em Escalhão. Em homenagem à população sacrificada ergueu-se em 1940 um cruzeiro de pedra no adro da igreja matriz de Almofala. Algumas povoações tais como a aldeia da Torre dos Frades e Colmeal das Olas jamais recuperaram da ruína que essa incursão espanhola provocou. Depois disso ainda sobrevieram a guerra dos sete anos (em 1762 Castelo Rodrigo é ocupada pelas tropas espanholas do Marquês de Soria) e a terceira invasão francesa comandada por Massena que provocou irreparáveis estragos na região.




Economia e recursos naturais

Tal como sucedeu com a maioria das aldeias do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, tipicamente rurais, a população de Almofala centrou-se desde tempos mais remotos na Agricultura dos cereais e da vinha e na pecuária para provimento do seu sustento e ostentação dos seus sinais primordiais de riqueza. Tempos houve em que Almofala se destacou como uma das freguesias do concelho de maior produção cerealífera. Nos últimos anos, apesar das dificuldades com que, por toda a parte, se têm debatido os agricultores, nos campos de Almofala ainda se vêem ondulantes searas de trigo, cevada e aveia. Relativamente à pecuária, longe vão os tempos da transumância de gado, que nostalgicamente nos últimos anos se ensaiam muitas iniciativas no sentido de reconstituir-lhes as rotas tradicionais, tais como as festas da pecuária e outros eventos promovidos pela Associação Transumância e Natureza (ATN), mas ainda se vêem rebanhos nas paisagens próximas de Almofala, que no período estival dormem nos bardos e durante as longas invernias costumam acolher-se nos «ovis», como nos dá conta Júlio António Borges no seu Roteiro Turístico do Concelho de Figueira de Castelo Rodrigo.

Por outro lado, a freguesia de Almofala é reconhecida como uma zona dotada de preciosos recursos minerais que ao longo da sua história foram sendo explorados até uma época relativamente recente, sendo de destacar, como exemplos mais significativos de explorações abandonadas, a mina Vale do Torno, a do ribeiro dos Frades, a do Cachão e a do prado do Rodelo. Aí se extraíam cassiterites, pirites e galenites, minerais associados à prata. Existe mesmo um local chamado Cabeço da Prata, topónimo que pode relacionar-se com a extracção deste metal em épocas mais remotas.[11] Para além dos recursos minerais referidos, a região de Almofala é também rica em recursos plumbários argentíferos, sabendo-se que o chumbo foi um dos últimos minérios a ser explorado em Almofala, sob o período da Regeneração, pois por Decreto n.º 73, de 27 de Março de 1855 era fundada a Sociedade Mineira de Ribacôa, «detentora da mina de chumbo argentífero na povoação de Almofala, concelho de Figueira de Castelo Rodrigo». [12]

Possui também Almofala um local de afamada nascente de águas termais, pelas suas propriedades e indicações no tratamento de certas doenças. Trata-se da fonte do Chafurdo situado no vale de Láxara, ao fundo de um bosque de carrascos junto a um confunto de hortas delimitadas por muros de pedra seca. A fonte é protegida por uma grande laje de granito assente em plano inclinado sobre um poço com cerca de 50x50 cm e igual profundidade. As mais antigas referências escritas à nascente e respectiva fonte, surgem pela mão do abade de Almofala, na sua resposta aos inquéritos para as Memórias Paroquiais, datada de 28 de Maio de 1758 que vamos citar.

«Tem uma fonte desviada do lugar, para o Nascente, no sítio a que chamam «Vale de Laxára». A água desta fonte é ferrada, e sai de piçarras, ou pedra branda, sem se levantar da terra. Já de tempos antigos, os trabalhadores se abstinham de a beber, por lhes fazer fome. No ano de 1728, o Dr. Bernardo Lopes Pinho, médico na cidade da Guarda, veio observar as águas e declarou ser manancial de mina de aço e por consequência terem particular virtude para todas as pessoas obstruídas, e com febres lentas, produzidas por semelhantes obstruções. Por esta razão, nos anos de 1749 até ao de 1754 concorreram dela muitas pessoas deste reino e do de Castela, e com efeito curou muitos enfermos de várias queixas; porém, destas águas quiseram fazer um total e generalíssimo remédio para todas as enfermidades, daqui veio que muitos se não melhoraram, antes foram piores por abuso e por lhes serem contrárias; do que nasceu perderem em grande parte o crédito e por isso já não são frequentadas, senão por raras pessoas».

Sendo cientificamente classificada a sua água como de natureza bicarbonatada sódica ferruginosa, é particularmente indicada para doenças de estômago e anemias. A tradição popular atribui-lhe ainda qualidades terapêuticas oftalmológicas. [13]
Do património natural de Almofala destacam-se ainda as impressionantes vistas das arribas do Águeda que integra o Parque Natural do Douro Internacional e onde existe uma numerosa colónia de grifos, fazendo desta região um paraíso natural da avifauna.



Enquadramento judicial

Como todas os restantes lugares do concelho, primitivamente pertenceu às justiças de Castelo Rodrigo instituídas pela monarquia leonesa. Após a sua integração na soberania portuguesa, com o Tratado de Alcanices, manteve-se sob a mesma alçada da jurisdição da vila, como era usual, pois o termo comarca não existia até ao século XV no sentido que hoje lhe damos de circunscrição judicial. Após o século XV pertenceu à abrangente comarca da Beira. Nos finais do século XVI as comarcas passam também a chamar-se províncias. As reformas administrativas então empreendidas em cada província deram origem a circunscrições menores que retomam o nome de comarcas. Desde então, e até à criação da comarca de Figueira de Castelo Rodrigo, após a sua elevação a vila e sede de concelho, Almofala, tal como a maioria das actuais localidades, pertenceu à Comarca de Pinhel.



Enquadramento eclesiástico

Antes da época árabe, provavelmente a localidade actual ainda não existia. Eventualmente um ou outro dos locais, situados dentro dos limites da freguesia, que atrás assinalámos, onde se acharam vestígios incontestáveis da sua ocupação na época romana ou mesmo anterior, como os casos de Civitas Cobelcorum ou o castro romanizado de Santo André, podem ter sido paróquias da diocese de Viseu e mais tarde da diocese de Caliábria, que, como se sabe, foi extinta à época da invasão árabe. Restaurada a mesma diocese de Caliábria por Fernando II de Leão em Ciudad Rodrigo (passou a usar este nome) e posto que o topónimo Almofala surge mencionado num documento do Mosteiro de Santa Maria de Aguiar de 1165, portanto posterior apenas em 4 anos à data da restauração da diocese, temos por certo que passou a ser uma das suas paróquias. Após a passagem dos concelhos de Ribacôa para a monarquia portuguesa, manteve-se na diocese de Ciudad Rodrigo até 1404. Neste ano passou à diocese de Lamego juntamente com todas as paróquias de Ribacôa subtraídas à de Ciudad Rodrigo por uma bula de Bonifácio IX, a instâncias de D. João I e a pretexto do Grande Cisma que então se abateu sobre a Cristandade ocidental. Passou depois para o bispado de Pinhel, elevado em 1770, por um breve de Clemente XIV, no reinado de D. José I. Finalmente, a 30 de Setembro de 1891, o papa Leão XIII, a pedido do rei D. Luís, dissolvia a diocese de Pinhel através da Bula Gravissima Christi Eclesiam, e tal como sucedeu com as demais paróquias do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, Almofala passou a pertencer à diocese da Guarda, onde se manteve até hoje.




__________


Referências:


[1] COIXÃO, António do Nascimento Sá, proto-história e romanização guerreiros e colonizadores III Congresso de Arqueologia de Trás-os-Montes, Alto Douro e Beira Interior, acta 2: Proto-História e Romanização do Baixo Côa: Novos contributos para a sua caracterização, p.29 e seg.
[2] COSME, Susana Rodrigues, Idem, acta 4: Proto-História e a Romanização entre o Côa e o Águeda, p.72 e seg.
[3] ARA – Associação de Desenvolvimento, Estudo e Defesa do Património da Beira Interior.
[4] COSME, Id. Ibid.
[5] MAIA, M. (1977) – Vilas romanas do território interamniense. O Arqueólogo Português. Lisboa, 3ª série. 7-9, p. 209-212.
[6] ALARCÃO, Jorge de, Notas de arqueologia, epigrafia e toponímia – II, Revista Portuguesa de Arqueologia. Volume 7, número 2.2004, p.203.
[7] VICENTE, António M. Balcão, A “Extremadura” Leonesa . O caso da fronteira de Riba-Côa nos séculos XII-XIII, p. 291.
[8] Id. Ibid., p. 295.
[9] BORGES, Júlio António, O Mosteiro de Santa Maria de Aguiar e os Monges de Cister, ed. da Câmara Municipal de F. C. Rodrigo, 1997, pp. 62-63.
[10] COELHO, Maria Helena da Cruz e Miguel Rêpas, As petições dos concelhos do distrito da Guarda em Cortes e a política transfronteiriça, in Centro de Estudos Ibéricos, p.5.
[11] BORGES, Júlio António, Figueira de Castelo Rodrigo, roteiro turístico do concelho, 2.ª edição da Câmara Municipal, 1997, p.57.
[12] SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, vol. IX, Editorial Verbo, 1986, pp. 284-285.
[13] Site Águas Termais ( aceder pelo link)

2 comentários:

  1. Retribuindo e agradecendo a visita em nosso blog, ao tempo que renovamos o convite para voltar mais vezes!

    Um fraternal abraço,

    Maris Stella

    ResponderEliminar
  2. Parabéns pelo excelente trabalho de pesquisa, que contribui enormemente para o registro da história dessa freguesia esquecida nos limites de Portugal, mas que é repleta de valor no processo de construção de Portugal.
    Me chamo Rubens, sou brasileiro com nacionalidade portuguesa com muito orgulho, pois minha avó, nascida em Almofala de Figueira Castelo Rodrigo me ensinou desde cedo o valor de sua Terra Pátria, a qual irei conhecer em janeiro de 2018 com muita emoção.
    Peço-lhe, por obséquio, que, se possível, me encaminhe ou me direcione a uma fotografia da cruz erguida no adro da igreja da matriz, pois não a encontrei em nenhum local pesquisado, e pretendo tê-la nos meus registros da visita a Almofala.
    Desde já agradeço.

    ResponderEliminar